Nota de repúdio à reabertura de escolas em Araraquara na pandemia

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Muito embora a população de Araraquara esteja ainda contraindo e transmitindo o vírus da covid-19 e também sofrendo com as tragédias decorrentes da doença, todas as escolas das redes municipal e estadual retornarão às suas atividades presenciais em agosto ou já retornaram, em obediência a um decreto municipal editado no dia 15 de julho que obriga o retorno completo e imediato de todas as unidades.

Apesar da queda na ocupação de leitos para covid-19 dos hospitais do município nas últimas semanas, morreram aqui 47 pessoas durante o mês de julho, e 67 em junho, em decorrência do coronavírus – números menores que no momento de colapso hospitalar em janeiro e fevereiro de 2021, mas ainda muito superiores a todos os índices de 2020. A cidade registrou 4.222 novos casos de covid-19 em junho de 2021 e 2.316 em julho, o que contraria a noção de que o fim da pandemia se aproxima. Se somados os índices de novos casos de julho, junho e maio, temos mais de 9 mil casos, isto é, número maior que todos os índices de 2020 somados, de casos confirmados. Araraquara, portanto, ainda vive um cenário extremo e sensível devido ao descontrole da transmissão de covid-19. Considerando também o ritmo lento de vacinação – em ao menos duas ocasiões, esgotou-se o estoque de vacinas e então se interrompeu por algum momento a imunização –, percebe-se que a tendência, inclusive, é o agravamento da situação, uma vez que tem sido cada vez mais ampliada a circulação de pessoas na cidade nas últimas semanas, desde o artificial retorno à pretensa normalidade, ilustrado pela reabertura de cinemas, bares e academias, além do próprio retorno mencionado das aulas presenciais.

De acordo com estudo recente, veiculado no jornal El País, mesmo com a utilização de máscaras, estar num local fechado com uma pessoa infectada pelo coronavírus pode elevar a probabilidade da transmissão, mesmo se mantivermos distância de até 15 metros dessa pessoa. Esse risco é diminuído se o ambiente for ventilado – medida possível em apenas parte das escolas da cidade, além de desconfortável se muito frio – e se o tempo de exposição for reduzido. Isso acontece, como já sabemos, devido ao contágio por aerossóis, partículas minúsculas naturalmente exaladas pelas pessoas através da boca e nariz (multiplicadas se a pessoa estiver infectada). Essas partículas ficam suspensas no ar por horas e podem transmitir o vírus para outras pessoas. Portanto, mesmo com a rígida higienização (medida que também não se executa em todas as escolas), ainda se vive em risco. De acordo com a matéria, enfim, são esses cenários de supercontágio (chamados assim por proporcionar rápida transmissão em progressão geométrica) os “mais decisivos no desenvolvimento e propagação da pandemia”.

Logo, considerando que nosso contexto em Araraquara segue insalubre para o retorno das atividades presenciais, como comprovam as evidências científicas e os próprios dados dos órgãos municipais de saúde, entendemos a reabertura compulsória das escolas como uma ação precoce e irresponsável, porque coloca em risco centenas de estudantes (pessoas ainda não imunizadas nem com a primeira dose, e que não têm voz na decisão do retorno), seus familiares (pois mesmo vacinadas, pessoas ainda transmitem coronavírus) e todos os profissionais da educação. Nós, enquanto educadores e munícipes, e enquanto coletivo atuante pela ampliação do direito ao ensino de qualidade, lamentamos a decisão municipal em questão e reivindicamos garantia de saúde e proteção para todas as pessoas envolvidas no funcionamento das escolas em Araraquara. Defendemos que a escola deva ser um espaço que preze por relações de respeito, igualdade e justiça social, assim como valorizar a saúde e segurança da comunidade, além de contribuir para a criação de uma cultura de prevenção, ou seja, pela conscientização de bons hábitos sanitários e dos riscos de doenças perigosas para as nossas famílias – e não mais um espaço da sociedade que nega todos esses valores. Defender uma educação de qualidade significa também construir nas escolas a sociedade e a consciência que desejamos pro mundo.

É por essa recusa ao protocolo de retorno, que não envolveu nenhum setor da população na construção, que grande parte dos servidores e docentes das escolas municipais de Araraquara estão em greve sanitária desde 12 de abril, quando se deliberou o retorno gradual às atividades presenciais, dando início ao mencionado protocolo. Nós do Cursinho Livre Caburé, movimento social por acesso ao ensino em Araraquara, somos solidários a esses profissionais e à sua justa greve, que desde então, vem denunciando a falta de estrutura adequada das unidades para voltar a receber estudantes com segurança. Inadmissível um sistema educativo que se recusa a discutir o retorno com seus responsáveis, e que pretende naturalizar um falso contexto de normalidade, além de ignorar o potencial de um vírus altamente destrutivo que já vitimou mais de 560 pessoas em Araraquara. Queremos escolas que realmente defendam a saúde da população e os valores e direitos humanos!

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