Sobre vestibulares em tempo de covid, nossa posição é: adiar tudo já!

Uma vez que, no Brasil, seja falsa a ideia da inclusão digital universal, fica evidente o fracasso de qualquer programa de ensino à distância que tenha tentado se impor às escolas públicas no contexto de pandemia e isolamento causado pelo novo coronavírus. Graças ao trabalho do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil) e sua pesquisa TIC Domicílios 2019, sabemos que apenas 74% da população brasileira tem hoje acesso regular à internet. Para as classes mais pobres, D e E, esse dado é ainda pior: apenas 50% dos lares das famílias desses grupos tem acesso à internet. Além de entendermos a carência de acesso à informação como grande prejuízo para uma democracia, não é possível conceber plataformas digitais de aprendizagem que funcionem nesse cenário. Não obstante o fato de que a maior parte dos estudantes estão sem aulas há quase três meses, o fiasco das estratégias de ensino online na pandemia não é uma previsão, mas uma realidade: em 7 estados do Brasil, e no DF, estudantes vivem apagão do ensino público, em que aulas foram suspensas e atividades remotas não serão usadas como carga horária. Em São Paulo, um dos estados que planejam, ao contrário, considerar aulas à distância como carga horária efetiva, dos 3,6 milhões de estudantes da rede estadual, apenas 1,6 milhão acessou a plataforma digital criada às pressas durante a crise.

Nesse sentido, portanto, não podemos ignorar as consequências futuras que podem incluir um aumento da desigualdade social como um todo e, principalmente, o aumento da desigualdade entre a educação pública e privada durante a pandemia, precarizando ainda mais o acesso de estudantes de escolas públicas ao ensino superior e os distanciando ainda mais dos espaços de produção de conhecimento.

É por isso que nós, educadoras, educadores, estudantes, gestores e profissionais da educação, reivindicamos o imediato adiamento dos vestibulares das universidades estaduais de São Paulo e inclusive do Enem, para o qual o MEC apresentou proposta insuficiente para a nossa demanda, visto que não há garantia jurídica e a medida da consulta pública aos estudantes inscritos não contempla nossa realidade. Não adiar os vestibulares, nesse momento difícil que o país enfrenta, significa elevar os privilégios dos setores mais ricos da sociedade, que têm estrutura e conforto para seguir estudando no contexto de isolamento - setores os quais já estão muito presentes no ensino superior público do país, grande abismo da nossa democracia. MEC, ENEM, UNICAMP, USP E UNESP: ADIA JÁ!

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