Um pouco da história dos cursinhos populares!

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O Cursinho Livre Caburé faz parte de uma longa e incessante trajetória de luta por Educação. Conheça os fatores que deram origem ao movimento de Cursinhos Populares e os importantes conflitos que fazem parte de sua História e que nos ajudam a compreender as desigualdades presentes ainda hoje no acesso e na permanência na Educação Superior.

Como você deve saber, há uma enorme desigualdade no acesso à Educação de todos os níveis em nosso país. Isso se deve a fatores históricos como a colonização, a escravidão e a industrialização, que além de tentarem homogeneizar a cultura pelo apagamento das diversidades culturais, exploravam mão de obra indígena, negra e pobre. Esses grupos foram profundamente marcados pelas violências que sofreram e que persistem ainda hoje, mesmo que em formatos diferentes.

É por isso que o acesso dessas populações à Educação formal tem sido uma batalha árdua através da história, corajosamente travada por aqueles que acreditam que mais do que um direito concedido pelo Estado, a educação é uma forma de construir consciência crítica a respeito da posição social em que se encontram e uma maneira de acessar o conhecimento necessário à autonomia. Esse tem sido o papel dos Cursinhos Populares!

No Brasil, foi apenas na década de 1930 que as primeiras Universidades públicas surgiram. Por causa da demanda que a indústria em crescimento exigia, o ensino secundário passou a ser dividido em educação secundária (procurada pelas camadas ricas da sociedade) e educação profissional (procurada pelos estratos mais pobres da sociedade), e a desigualdade entre estudantes advindos de famílias abastadas e estudantes de baixa renda no ensino superior se agravou. Aqueles que precisavam trabalhar optavam pela educação profissional, enquanto os mais ricos podiam se focar na educação secundária cuja conclusão determinava a entrada no ensino superior.

Nas décadas seguintes, com o crescimento da população urbana e a Constituição de 1946 que instituiu a educação básica como direito de todos os cidadãos, a demanda por vagas no ensino superior aumentou muito e ultrapassou as ofertadas. O vestibular foi ficando cada vez mais difícil, e passou a ser eliminatório, ou seja, os candidatos excedentes passaram a ser excluídos do processo. Além disso, com a participação da iniciativa privada na Educação, ela passou a ser vista como uma mercadoria, e as instituições particulares se tornaram empresas lucrativas.

Aparecem os primeiros cursos pré-vestibulares: Em 1950, o Grêmio estudantil da Politécnica da USP criou um cursinho para contribuir com o acesso ao ensino superior. Em 1957, membros do Centro Acadêmico Armando Sales de Oliveira (CAASO) na USP de São Carlos, também. Ambos os cursos tornaram-se particulares e deixaram de cumprir com o seu papel inicial de garantir educação gratuita ou a baixo custo para quem não poderia pagar.

Entretanto, outros cursos foram surgindo, e é importante considerar que durante os 21 anos de Ditadura Militar, foram alvo de repressão e muitos precisaram funcionar clandestinamente. Orientados pelos princípios da Educação Popular, eram considerados subversivos de uma ordem que colocava jovens negros e periféricos em posições sociais distantes do conhecimento científico e limitados a comporem mão de obra para a indústria. Eram contrários à privatização da Educação, incluindo os cursinhos pré-vestibulares privados, que não pararam de aumentar.

Por mais que as conquistas da Educação tenham sido sempre resultado de processos de luta das populações excluídas dela, percebemos que quanto mais a acessam, mais ela se torna técnica e profissionalizante! Ainda mais na atualidade, com uma sociedade cada vez mais tecnocrática e individualista…

Os principais atores a constituirem o movimento de cursinhos populares foram estudantes de universidades públicas (movimento estudantil), o Movimento Negro e a ala de esquerda da Igreja católica (Teologia da Libertação) que inclusive cedia paróquias para a realização das aulas.

O movimento de cursinhos populares com abordagens anticapitalistas, antirracistas e orientados pelas pedagogias críticas como a Educação Popular foram ganhando força, e nos anos 1990 surgiu o Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC) no Rio de Janeiro, por estudantes vinculados ao movimento estudantil. Também no interior das Universidade, surgiu o Cursinho da Consciência Negra, por membros do Núcleo da Consciência Negra da USP, que tinha como centro de suas discussões a exclusão da população negra na instituição.

Fora do espaço das universidades, cursinhos populares de protagonismo negro marcaram a História dos pré-vestibulares. A EDUCAFRO que começou no Rio de Janeiro mas se expandiu para outros estados, existe ainda hoje sendo uma referência na preparação pré-vestibular de estudantes advindos da educação pública. Também a partir dele surgiu a UNEAfro, e ambas funcionam como rede composta por diversos núcleos.

Apesar de muitos cursos pré-vestibulares terem se tornado negócios lucrativos e adotado pedagogias tradicionais e voltadas apenas para a preparação para provas, outros permaneceram fundamentados em princípios de reparação histórica que não se desvinculam de uma pedagogia para a emancipação. Hoje dizemos que os cursinhos populares existem para que possam deixar de existir!

Isso mesmo… se o acesso à Educação Superior fosse para todos, não existira razão para o vestibular. A luta pelo fim do vestibular é uma pauta central do movimento estudantil. Os cursinhos populares são espaços de politização e de educação crítica. Nesses espaços, novas formas de sociabilidade são vivenciadas, e a visão sobre Educação se amplia de forma a contemplar a diversidade. Os educadores são muitas vezes voluntários, e proporcionam atividades educativas interdisciplinares para além de suas aulas específicas.

Assim os Cursinhos Populares caminham até hoje: com uma perspectiva crítica sobre os rumos da Universidade pública e promovendo acesso à formação pré-universitária de maneira gratuita, autônoma e como forma de ingresso no ensino superior para que possam transformá-lo a serviço do povo e não das empresas interessadas em sua privatização.

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